PLD foi fixado em R$ 475,53, valor duas vezes maior que o praticado há menos de sete dias
O preço da energia no mercado livre, tecnicamente conhecido como Preço de Liquidação de Diferença (PLD), disparou 92% desde a semana passada devido à estiagem que já preocupa o governo e os agentes de mercado. Na noite da última sexta-feira [04/01/2007], a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) fixou o PLD para esta semana em R$ 475,53 por megawatt/hora (MWh), valor praticamente duas vezes maior que o definido para a semana anterior (R$247,01/MWh) e que já começa a se aproximar do preço recorde de R$684/MWh, alcançado em junho de 2001-auge do racionamento.
Embora representantes do governo façam questão de minimizar o risco de um novo racionamento, executivos e consultores do setor já começam a fazer as contas para medir os verdadeiros riscos para indústrias e consumidores residenciais. Presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Paulo Mayon adverte que a margem de manobra para o abastecimento de energia é pequena, porque o cobertor é curto no caso do gás. Por isso, alguma medida terá que ser tomada se não chover. “Se continuar a estiagem terá que ser feito um corte seletivo de energia”, alerta Mayon, ao lembrar que com exceção dos reservatórios dos subsistemas Sudeste/Centro Oeste, todos os demais do País estão abaixo do volume verificado em janeiro de 2001, dois meses antes do racionamento.
“A sorte é que os reservatórios do Sudeste e Centro Oeste apresentam maior capacidade do que todos os demais somados” compara Mayon, ao lembrar, no entanto, que são responsáveis pela região de maior consumo do País. “De qualquer forma, é preciso se ter muita atenção neste momento, embora não seja a hora, ainda, de se entrar em desespero.”
De acordo com dados da Anace, enquanto os reservatórios do subsistema Sudeste/Centro Oeste encontravam-se com 31% de sua capacidade no primeiro mês de 2001, nesta primeira semana de janeiro de 2008, encontram-se com 45% de capacidade. O problema é que, no sul, estão com 74% de capacidade, abaixo portanto dos 99% verificados em Janeiro de 2001. Os reservatórios do Nordeste e Norte, por sua vez, encontram-se hoje com, respectivamente, 27% e 30% de sua capacidade. Em janeiro de 2001 encontravam-se melhor abastecidos, com respectivamente 41% e 72% de capacidade.
Outro dado que preocupa, segundo o presidente da Anace, diz respeito ao preço da energia nesta semana. Os R$475,53 definidos na última sexta-feira [04/12/2007] pela CCEE superam o preço (R$ 459/MWh) de maio de 2001. Menos de 30 dias depois, lembra Mayon, o preço da energia alcançaria o valor recorde que perdura até hoje.
Em um ponto, porém, o executivo da Anace concorda com os representantes do governo – a situação atual demanda um estado de alerta, mas não de desespero, pelo fato de janeiro representar apenas o início do chamado período chuvoso, que vai de dezembro a abril. Embora não haja previsão de chuvas para a região Nordeste nos próximos sete dias, o Instituto Nacional de Meteorologia, de acordo com Mayon, prevê a chegada de uma frente ainda nesta semana que pode mudar o cenário hidrológico do subsistema Sudeste, responsável pelo maior mercado consumidor do País.
O presidente da CCEE, Antônio Carlos Fraga Machado, admite a existência de um período de estiagem, segundo ele, “muito prolongado”, mas considera prematuro e precipitado falar em racionamento energético antes de abril. De acordo com o executivo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável pelo despacho das usinas disponíveis no País, já adotou medidas que deverão garantir a segurança do abastecimento, como o despacho da termelétrica a gás Termo Pernambuco, da Petrobras, e outra a óleo combustível, também na região Nordeste.
Tanto a CCEE quanto o ONS informaram não trabalhar com a hipótese de um novo racionamento de energia neste ano. Além de classificar de normal a situação hidrológica do País nesta época do ano, o diretor geral do ONS, Hermes Chipp, afirmou que todos os acontecimentos das últimas semanas encontram-se “dentro da programação”. Assim como Mayon Chipp confirmou que a expectativa é de que chova, ainda nesta semana, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. No Ministério de Minas e Energia nenhuma medida especial sobre o assunto foi tomada. “Sem dúvida, os preços da energia no mercado livre refletem as condições hidrológicas do momento”, admite Fraga Machado, da CCEE. “Agora, dizer que tal situação reflete um risco de racionamento energético, isso não é verdade. O racionamento é uma hipótese que ainda não está aventada”.
O diretor-presidente da Anace prevê que, mesmo que o cenário de racionamento não se confirme, a tendência nos próximos meses é de manutenção de PLD alto, próximo do patamar atual. Para Mayon, mesmo que chova muito até abril, o ONS deverá manter-se conservador na administração dos reservatórios Hídricos, optando pelo despacho das usinas termelétricas para poupar a água dos reservatórios. O executivo justifica que fatores como a insegurança do abastecimento de gás da Bolívia e a baixa oferta interna do insumo devem manter a incerteza no cenário energético nacional. “A tendência é de ocorrer um choque tarifário entre o fim de 2008 e o início de 2009, que não deverá poupar tanto os consumidores industriais quanto os residenciais”, preve Mayon.